Grandes varejistas da internet brasileira seguem exemplo da Amazon e agora oferecem o próprio site para que lojas menores, especializadas em categorias de nicho, vendam produtos; modelo, porém, pode causar confusão para consumidor

Carine Montilha fez compra de fraldas, vendidas por outra loja no site do Extra, e teve atraso de dois meses na entrega. FOTO: Felipe Rau/Estadão

SÃO PAULO – No último ano, grandes lojas online começaram a investir em um modelo de vendas que ainda era pouco difundido no comércio eletrônico do Brasil. Em vez de ampliar o próprio catálogo, as empresas começaram a fazer acordos com lojistas menores para que eles vendam produtos em seus portais.

Com isso, hoje uma pessoa que faz compras em uma grande loja pode adquirir um item que, na verdade, é oferecido e entregue por uma outra empresa – o que, apesar dos benefícios, pode criar problemas de entrega. O modelo, conhecido no setor como “marketplace”, é uma das principais estratégias adotadas pela Amazon. Foi assim, se tornando um shopping virtual, que a varejista garantiu seu fortalecimento nos Estados Unidos e virou um símbolo de compras online no mundo.

Ao menos sete grandes empresas do comércio eletrônico brasileiro  Extra.com.br, Walmart.com, Magazine Luiza, Saraiva, Rakuten, MercadoLivre e Buscapé) já operam com um modelo semelhante, vendendo produtos de outras lojas. O comerciante menor aproveita a audiência e, em contrapartida, o varejista eleva o número de itens à disposição, sem aumentar os custos de logística.

“No ano passado havia um forte rumor de que a Amazon viria para o Brasil. A gente pode dizer que este é um movimento de defesa das grandes varejistas”, diz Pedro Guasti, diretor-geral da consultoria em comércio eletrônico E-bit. A Amazon estreou no Brasil em dezembro, mas apenas com a venda de livros digitais e do leitor Kindle.

Mesmo em fase inicial, o “marketplace” já é significativo no Brasil. Em 2012, as vendas por este canal movimentaram R$ 6,5 bilhões, segundo o cálculo da E-bit. O valor é equivalente a 29% do comércio online tradicional (R$ 22,5 bilhões).

Com uma experiência mais longa no setor, o MercadoLivre é responsável por boa parte desse faturamento. O site é mais conhecido por atrair vendedores individuais e pequenos comerciantes, mas a empresa tem investido em ferramentas para integrar lojas online à plataforma. É uma forma de usar sua audiência de 90,2 milhões de usuários registrados para que outras lojas online promovam seus produtos (normalmente centenas ou milhares de itens).

“Antes um lojista precisava gerenciar suas vendas e subir anúncios manualmente”, disse Helisson Lemos, diretor-geral do MercadoLivre no Brasil. “Hoje ele pode fazer um espelhamento do site através das APIs (ferramentas que permitem a integração dos sistemas).”

A empresa não está sozinha. A Saraiva, que inaugurou uma plataforma de marketplace em 2011, hoje oferece 40 mil produtos e serviços de 15 fornecedores parceiros.

Já o site da Magazine Luiza, que trabalha com o modelo de marketplace desde 2010, tem produtos de sete parceiros, em categorias como cosméticos, perfumaria, suplemento alimentar, relógios e pneus. A Rakuten, que é exclusivamente um shopping online para lojas iniciantes, tem produtos de 500 comerciantes.

No primeiro semestre foi a vez do Extra.com.br (da Nova Pontocom) e do Walmart.com inaugurarem suas operações na área, para expandir a oferta de produtos. “Queremos aumentar o catálogo de ofertas, dar realmente opções de escolha para o consumidor”, disse Fernando Madeira, presidente executivo do Walmart.com para a América Latina.

No Extra.com.br, desde que o serviço foi lançado, em abril, a loja dobrou a oferta de produtos para 200 mil, com parcerias com 24 lojas.

Há, porém, uma preocupação de que o marketplace piore a avaliação do consumidor sobre as lojas, uma vez que outra empresa é responsável pelo estoque e pela entrega. Junto de empresas de telecomunicações e bancos, o comércio eletrônico liderou as reclamações no Procon-SP de janeiro a junho.

A educadora Carine Montilha sentiu o que é isso. Em junho, ela comprou dois pacotes de fraldas no Extra.com.br para sua filha de 2 anos. Um dos pacotes era vendido pelo Extra, e foi entregue dentro do prazo. Mas o segundo, vendido pela Bebê Store, não chegou. “Entendo que a loja não tinha o produto, mas a responsabilidade é do Extra, que terceirizou a venda”, disse. As empresas reconheceram a falha e dizem ter resolvido a origem do problema.

Para Cristiano Chaussard, professor de comércio eletrônico na Universidade Estácio de Sá, o modelo é arriscado para as marcas. “O parceiro escolhido deve representá-lo com a mesma dedicação que você teria. Encontrar alguém assim é tão essencial quanto raro.”
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Fonte: Blog Estadão

Por Filipe Serrano